top of page

1987

  • Foto do escritor: Jubs Rosa Rebelo
    Jubs Rosa Rebelo
  • 17 de fev. de 2024
  • 2 min de leitura

Marcamos a viagem para o dia catorze de dezembro e com isso, o ano inteiro foi de planejamento e espera por aquele dia. Aconteceu que só dia vinte e um de dezembro embarcamos. Escolhemos ir de trem pois não tínhamos pressa, poderíamos conversar, apreciar as paisagens, parar vez ou outra para esticar as pernas, com sorte pararíamos em algum lugar com praia para ‘molhar as frieiras’, o máximo que você fazia quando via o mar, mais que isso te dava paúra.


Fazíamos uma viagem maravilhosa juntas, não perdíamos oportunidades de falar sobre o que víamos. Trocávamos experiências e elucubrávamos sobre quem chegava e quem deixava o trem.

Em um determinado momento da viagem passamos a aguardar ansiosas por um embarque especial, alguém que mudaria nossas vidas, e depois de alguns meses ela enfim chegou. Era difícil acreditar que aquela viagem poderia ficar melhor. Nós três ríamos e nos divertíamos. As paisagens ficaram ainda mais lindas, os momentos juntas eram duradouros e não passavam em um piscar de olhos, ao contrário nos faziam tê-los cheios de lágrimas de contentamento pelo que víamos e vivíamos juntas.


Numa manhã fria de junho ao me ver, a primeira coisa que você disse foi que o dia estava lindo e estava mesmo, conversamos mais um pouco enquanto tomávamos café juntas.


Algumas horas depois percebi que o trem parou. Olhei pela janela para entender o porquê. Não entendi o que vi. Era você desembarcando. Eu te chamei, mas você não me ouviu, então eu gritei:


'Mãe'!!!


Percebi que o trem começou a andar, então eu pedia para que te esperassem. Ninguém me ouvia. Com meu corpo quase todo para fora da janela eu vi você parada na plataforma. Você me olhava com serenidade e eu pude ver uma lágrima em seus olhos. O trem começou a se afastar do ponto em que você desembarcou, mas eu ainda podia te ver.


Eu gritava para que te esperassem, você voltaria, eu tinha certeza. O trem ganhava velocidade. Você enfim acenou para mim. Eu entendi que você estava se despedindo. O trem estava mais rápido e você estava mais distante de nós, mas ainda estava ali. Parada. E eu na janela, te olhando.


Você desembarcou. O trem não te esperou. Você ficou e nós seguimos. Notei que já não te via tão bem, estávamos distantes demais. Você não teve tempo de se despedir, você não me explicou o porquê, e a viagem continuou. Agora sem você.


Viajamos juntas por trinta e duas estações e eu sei que jamais verei paisagens tão lindas novamente.

Eu me lembro sobre o que falávamos naquela última manhã de junho. Era sobre o porvir e você me incentivava a acreditar que valeria a pena.


(Carta com muito amor, para minha mãe - a melhor do mundo, Arlete)



 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

1 comentário


clarice.7doces
18 de fev. de 2024

Sensível, imagético profundamente tocante. Estou em êxtase. Paisagens lindas estão em nossos olhos, não nelas, pessoas grandes assim sempre se deixam em nós. Este foi só mais um reencontro. Estou com você sempre.

Curtir
Post: Blog2_Post

Formulário de inscrição

Obrigado(a)

©2019 by No que eu estou pensando?. Proudly created with Wix.com

bottom of page